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Vinhos Verdes


Uma rota antiga, cada vez mais moderna, com pratos, copos e tradições para entrar na história.

“- Traga lá o pescado com batatas e veja um martelo de vinho.
– Quer verde ou virgem?
– Venha o verde; mas anda com isso, filho, que já não vem sem tempo!”

O trecho acima é uma das passagens do clássico “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo, que mostra a simplicidade com que o vinho era servido no Rio de Janeiro dos anos 1890. Ou seja, há mais de 120 anos que o brasileiro convive com o vinho verde, pelo menos na literatura. Na vida cotidiana, é muito mais. Mas este vinho verde era bem diferente de hoje. Era mais leve e simples, mais frutado e floral, frisante, levemente efervescente e pouco alcoólico.

Sede da Quinta da Aveleda, na sub-região de Sousa, e suas paredes que mostram porquê são tão verdes aqueles vinhos. – Foto Pedro Mello e Souza

Esse vinho até existe, mas, atualmente, um exército de produtores trabalha em uma outra frente, em que os rótulos são mais modernos no conteúdo e na sua produção, na vinha e na vinificação desses brancos notáveis. O resultado leva sorriso largo a todos os grandes especialistas mundiais, que prezam aquilo que é mais desejado nos vinhos contemporâneos, o sabor da fruta e, principalmente, a acidez. “Melhoraram dramaticamente”, anima-se Jancis Robinson, maior crítica de vinhos da atualidade. Outro crítico fundamental, Richard Mayson, conhece bem a área, brinca com o que há de verde na região, em seu livro Wines of Portugal. Ele cita a Costa Verde, o caldo verde, o verdume das florestas e até as plantações de couve. Com essa remissão, ele dá a pista da grande viagem que a região proporciona, nos pratos ou nos copos, com o paladar e com a história.

Quinta do Lago, da Casa da Calçada: história e estrela Michelin no coração de Amarante. – Foto Pedro Mello e Souza

A rota dos chamados Vinhos Verdes começa no Porto, logo lá, ponto de partida dos vinhos do Douro para o mundo. Mas em torno da cidade está uma região em que a produção da uva é o caminho para uma série de áreas em pleno Minho, que esparrama sua vegetação verdejante por todo o noroeste de Portugal, até o oeste das serras, e no norte, onde toca terras de Espanha. É a maior região vinícola de Portugal. E considerada como a primeira e mais tradicional de todas, já que foi a primeira a exportar seus barris para a Inglaterra. Hoje, Vinhos Verdes é região com nome próprio e, de tão grande, tem suas sub-regiões bem definidas, todas elas cortadas por rios que descem, ordenadamente, em direção ao poente.

Em toda esta fração norte de Portugal, as paradas pelos caminhos contam parte da origem do país. Não há um único passo que se dê em Guimarães em que não se caminhe com a história a seus pés. Portugal começou ali, nas sombras do Castelo de Guimarães, monumento seminal da área então conhecida como Condado Portucalense. Castelo de Guimarães é também um dos grandes rótulos da área, própria para a produção de vinhos à base de uvas como arinto, trajadura e aquela que é considerada como uma das uvas mais sorridentes de Portugal, a loureiro.

A colheita do arinto no Monverde. – Foto Pedro Mello e Souza

Quem subir pelo litoral, a parada obrigatória é Póvo de Varzim, berço de Eça de Queiroz, que brindou ao vinho verde no conto “Singularidades de uma Rapariga”:

“A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogado em arroz branco, com fatias escarlates de paio – e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava de fronte de mim, comendo tranquilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos – se ele era de Vila Real.”

O detalhe da uva arinto ainda na planta – Foto Pedro Mello e Souza

Ainda mais próximo do Porto, o Rio Tâmega é área de vinhos espetaculares, inclusive na própria cidade de Amarante, com monumentos seculares, da ponte que cruza as águas ao Convento de São Gonçalo, passando pela Casa da Calçada, que, além do hotel, abriga em suas paredes seculares o restaurante do mesmo nome, que acaba de ganhar sua primeira estrela Michelin. Em plena área dos vinhedos, a Quinta de Sanguinhedo abriga o Monverde Wine Experience, um resort dedicado ao vinho, onde, no fim do verão, início do outono, o hóspede tem a chance de fazer a colheita das uvas do lado dos agricultores locais. Uma dessas uvas é o avesso, típica da região, que confere aos vinhos verdes aquilo que menos tinham: corpo.
Mais ao norte, novos microclimas, de novos rios, de novas histórias, novas frentes de turismo e, claro, novos hotéis. Um deles é a sede de um dos rótulos mais festejados e premiados de Portugal, o Quinta do Ameal, em Ponte de Lima, de acidez espetacular, mas com elegância invejável, produzido em área sinuosa do vale do rio Cávado, de caráter único, em uma paisagem de se perder o fôlego. No centro dessa imagem, totalmente tomada pelas heras, o pequeno hotel de oito quartos majestosos e piscina regado ao espetacular espumante da casa.

A uva alvarinho, ícone dos vinhos verdes. Foto Pedro Mello e Souza

Quem insistir nas estradas rumo ao norte vai chegar à área de Monção e Melgaço, o paraíso do alvarinho. Se lá estão os vinhos mais antigos da região, estão também os mais modernos, como no caso do Soalheiro, dos Muros Antigos, do Palácio da Brejoeira e dos dois nomes da nova vanguarda do vinho verde, Anselmo Mendes e Vasco Croft, autor de frase lapidar sobre uma das uvas com a qual produz seu mais brilhante rótulo Aphros: “Loureiro é puro aroma dos nossos riachos”. Saltado o maior desses riachos, o rio Minho, estamos na Espanha, já na rota de Santiago de Compostela.
Alvarinho ou albariño?

Festejada casta de uvas brancas portuguesas, a uva alvarinho é a mais graduada das uvas indicadas para a produção de brancos da denominação Vinhos Verdes. É também a base de alguns vinhos da Galícia, onde é grafado ‘albariño’. Por este mesmo motivo, é também conhecido entre os minhotos como ‘cainho branco’, ‘galego’ ou ‘galeguinho’, embora a denominação ‘alvarinho branco’ possa surgir de um discernimento em relação a outra casta, o ‘alvarinho lilás’. Gerava vinhos frescos, aromáticos, leves e, geralmente, pouco alcoólicos. Hoje, ganham densidade, classe, corpo e aromas nítidos de frutas tropicais como o pêssego e notas cítricas, que completam o paladar na boca.

A uva avesso no corpo do Quinta de Curvos, na sub-região de Lima. Foto Pedro Mello e Souza

A marca maior, a acidez, é própria para acompanhar tanto delicadezas como ostras e outros mariscos como potências de gorduras, da sardinha assada ao leitão assado. A exuberância chega às margens do rio Minho, na fronteira com a Espanha, especialmente na região de Monção e Melgaço. Do outro lado da fronteira, já com a denominação ‘alvariño’, a uva brilha com notas mais densas, mas igualmente frescas e ácidas, na área de Rías Baixas. O ‘alvarinho’ ganhou o mundo no início do século 20, com produtores em pontos tão distintos quanto o sul da Austrália, Califórnia, Uruguai e até no Brasil, embora muitos afirmem que já fosse objeto de comércio com os ingleses, na época em que os barcos lusitanos subiam o mar do norte em busca do bacalhau seco. De volta a Portugal, regiões vinícolas como ‘Terras do Sado’, ‘Beira Litoral’, ‘Tejo’, ‘Madeira’, ‘Açores’ e até Lisboa são autorizados por lei a usar a uva alvarinho para a composição de vinhos regionais.

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