cadastre-se entrar

Uma confirmação de registro será enviada para você por email.


Perdeu a senha?

Uvas antigas revelam sabor novo


Como as castas de vinhos de aperitivo e de sobremesa tornaram-se sinônimos de vinhos frescos – e inesperados.

Veuve Alban e o frescor da uva ugni-blanc matriz dos mais finos conhaques- Foto: Pedro Mello e Souza.

Veuve Alban e o frescor da uva ugni-blanc matriz dos mais finos conhaques- Foto: Pedro Mello e Souza.

Vinhos fortificados, licorosos, generosos. Portos, Marsalas, Madeiras, Jerez e até o conhaque. Todos têm algo em comum que muitos percebem: são pesados. E muito em comum que poucos notam: as uvas brancas, todas muito frescas e muito ácidas. E que revelam o brilho na mão de produtores modernos, alguns antigos, mas sempre na vanguarda, trazendo a surpresa de castas que muitos sabem no que dão, mas que só agora são reveladas como vinhos frescos.

Malvasia do aperitivo do Porto para o branco do Douro no corte da Quinta da Casa Amarela. Foto: Pedro Mello e Souza

Malvasia do aperitivo do Porto para o branco do Douro no corte da Quinta da Casa Amarela. Foto: Pedro Mello e Souza.

Os vinhos à base da uva pedro ximenez, típicos da região de Jerez de la Frontera, sul da Espanha, estão entre os mais concentrados do mundo. Assemelham-se mais a uma calda do que a uma bebida e, em alguns casos, há mesmo quem raspe o fundo do copo com uma colher. De tão fechado, o sumo da uva, muito branca, torna-se escuro como um melado. E melado é a expressão adequada, quando se fala nas notas dos aromas do vinho original, dominadas ainda por mel e figos secos. Mas com o vinho seco, a uva manifesta sua acidez, seu frescor e em terrenos áridos como os da vinícola Falernia, no Chile, o brilho e a manifestação de seus minerais. O vinho chega a brilhar com a acidez da variedade, com notas de flores que murcham na sua versão fortificada.

Sercial, do potente-vinho da Madeira ao espumante de Paulo Laureano. Foto: Pedro Mello e Souza.

Sercial, do potente vinho da Madeira ao espumante de Paulo Laureano. Foto: Pedro Mello e Souza.

Sercial é uma das uvas típicas da Ilha da Madeira. E tornou-se uma das castas selecionadas com a experiência daqueles ilhéus, que escolheram as variedades pela estrutura, acidez, aroma e longevidade que conferiam aos Madeiras para aperitivo, após serem submetidos ao tradicional método de estufagem – aquecimento longo, à baixa temperatura, que caracteriza aquele que, para muitos, é o melhor vinho do mundo. Mas e no caso dos vinhos jovens? A resposta está na experiência que o produtor português Paulo Laureano, mais famoso por seus vinhos do Alentejo, realizou perto de Lisboa, no litoral arenoso de Collares. Dali, uma meca de vinhos ligeiramente oxidados – magníficos –, ele tirou o lado seco da sercial para dar frescor ao inesperado: o espumante.

Sole e Vento, a versão fresca do passito e do marsala, assinada por Marco de Bartoli. Foto Pedro Mello e Souza.

Nem cabernet, nem pinot. O ugni blanc, quem diria, era a uva mais plantada da França até o ano passado, quando foi suplantada pela grenache. Seu destino, o conhaque. Mais uma vez, a acidez e a secura delicada da variedade, conhecida pelos italianos como trebbiano e uma das bases de outro vinho fortificado, o vin santo, eram (e ainda são) os motivos para ter na uva um objetivo tão quente. Mas, por dentro da casca de um verde muito claro, há o frescor revelado pela descoberta de seu potencial em um vinho – e mais um espumante, o Veuve Alban, feito em Bordeaux. Refrescante, quase refrigerante, é um vinho feito sem qualquer adição de açúcar – nature, como dizem –, o que exige equilíbrio do nível de maturação de cada uva. Ou seja, um método que exige qualidade do vinhedo e do enólogo.

Surpresa do Valle de Elqui, o pedro ximenez da chilena Falernia. Foto: Pedro Mello e Souza)

Surpresa do Valle de Elqui, o pedro ximenez da chilena Falernia. Foto: Pedro Mello e Souza

Malvasia é um nome tão antigo que, ao longo do tempo, mais de 50 variedades de uvas usam a denominação de alguma forma. Várias delas integram o corte de vinhos fortificados, com destaque para a malvasia fina, um dos pilares do vinho do Porto Branco. Ao ser usado nos rótulos dos modernos vinhos da região, revela alguns dos caracteres que perde ao se transformar no adorável aperitivo: untuosidade e aromas de frutas, como o pêssego e a ameixa. Um dos exemplos é do Quinta da Casa Amarela, premiado como uma das melhores vinícolas da área, que, quente que é, implora por vinhos frescos.

Da Sicília, vêm dois vinhos fortificados, espetaculares, os Marsalas e os Passitos de Pantelleria. De lá, vem também a alegre experiência que o produtor Marco de Bartoli fez para o vinho seco, usando duas uvas diferentes e de terroirs distintos. A grillo, dos solos escuros das encostas do vulcão Etna; e a zibibbo, ou moscatel de Alexandria, base dos Passitos. O resultado está no Sole e Vento, estalando de calor e de frescor, estruturado, com uma textura delicada, que começa com uma boca salina, daquela dureza mineral, seca, mas que se torna ligeiramente aveludada em cada gole do caminho. É a marca do gênio, que sabe fazer não só o bom, mas também o barato. E que, como os vinhos modernos, revela o lado fresco das uvas dos vinhos fortificados.

Tags:

Deixe seu comentário

publicidade