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Os novos caminhos do moderno Alentejo


Visita a vinícolas mostra os rumos das adegas e das mesas que estão levando a moda do enoturismo à região.

Pedro Mello e Souza

Para quem curte bons copos e bons pratos, Portugal é um cardápio completo. Todos os tipos de vinhos, toda sorte de ingredientes e toda variedade de receitas, salgadas ou doces, cabem no pequeno território dessa grande nação gastronômica. E com uma vantagem: cada uma das diferentes regiões está a poucas horas de Lisboa.

E de Lisboa parte-se para uma das regiões que mais se moderniza no cenário de Portugal: o Alentejo. A imensa área, que toma um terço da área de Portugal passou por dificuldades sem iguais para confirmar sua identidade à mesa: foi o ponto de encontro (e de conflito) entre Roma e os celtas, foi o campo de batalha entre lusos e mouros, teve sua vocação vinícola arrancada pelo Marquês de Pombal e, já no nosso século, extirpada por Salazar e arrasada pela revolução – todos queriam o seu solo para montar o celeiro português dos cereais.

Mas não se perde tempo no Alentejo. Muito menos quem sai cedo de Lisboa e já degusta os primeiros vinhos da região hora e meia depois. A estrada que cruza o mapa liga a capital até a Espanha, em cerca de 200 quilômetros de retas margeadas por oliveiras, pomares de laranjas e, claro, muitas vinhas. Nas estradas vicinais, especialmente aquelas em torno de Beja e Évora, chegamos aos produtores mais cobiçados.

Um desses produtores é a Herdade do Rocim. O reflexo da modernidade já dá suas boas vindas com a construção em linhas retas, que transforma a estrutura de sua sede e de sua adega em escultura minimalista em belo contraste com a sinuosidade das colinas e o desenho geométrico dos vinhedos. Lá dentro, tudo o que o visitante precisa para se tornar íntimo da enograstronomia alentejana: sala de degustações, restaurante para eventos e jantares – ou almoços, como o que tivemos na companhia de Catarina Vieira, proprietária e enóloga.

Localizada entre as pequenas cidades de Cuba e Vidigueira, a Herdade do Rocim está no centro de 70 hectares de propriedade, que proporcionam brancos como o Olho de Mocho, à base de uva antão vaz (emblema da região), muito fresco, cítrico e mineral. Ou o espetacular Rocim Reserva, à base de alicante bouschet, uma casta francesa para a qual ninguém nunca dava muita bola, mas que que encontrou sua vocação em Portugal, tal como a malbec na Argentina, a tannat no Uruguai e a carmenère no Chile.

No almoço, preparado por um chef convidado, José Julio Vintém, do Tombalobos, da cidade alentejana de Portalegre. E alentejana foi a mesa, com brigadeiros de farinheiras, cacholeiras, buchos fritos e bochecha – quatro especialidades de uma das riquezas da região, o porco preto. Perfumado, macio, quase adocicado, é a fonte maior da salsicharia lusitana, de denominações reconhecidas com festa pela União Europeia. E, afirmam os portugueses, matriz do mais fino presunto pata negra, dos ibéricos.

Ainda na Vidigueira, chega-se à Herdade Grande, rótulo bem conhecido entre os brasileiros. A propriedade é um autêntico parque temático do agroturismo, com 60 hectares de vinhedos, outros 20 de olivais e campos de cereais e de cultura de ovelhas, além de uma área autorizada para a caça. Na visita à adega, conduzida por Antonio Lança e sua filha, e enóloga Mariana, o conceito que a casa faz do vinho moderno, provado diretamente das cubas, como o premiadíssimo antão vaz da marca. “É a casta rainha da Vidigueira e ainda vai pegar de moda”, afirma Lança, em seu português castiço.

Na sequência, experiências como a combinação de castas antigas e novas na região, como a tinta caiada e a tinta grossa com syrah e alicante bouschet. Ou uma versão local da fórmula do Douro, com tourigas nacional e franca. Durante a visita, petisca-se a notável azeitona cobrançosa que produzem. Na mesa, mais um triunfo do porco preto, assado, dispensando a faca. Antes, um prato tão intenso quanto inesperado, pela distância do litoral: a sopa de cação.

Próximo dali, a moderníssima Quinta do Quetzal traz surpresas como um proprietário holandês, Cees de Bruij; o solo de xisto, raro em um Alentejo de argilas; a arquitetura da adega, que lembra a do interior de um Guggenheim; um vinho feito como um porto, mas com uva alicante bouschet. Entre os destaques, o Reserva Tinto, feito com syrah e trincadeira, que mostra que o frescor da área, uma das mais frias da região, pode contribuir com a volta da antiga casta alentejana.

Na Herdade dos Grous, já em Albernôa, região de Beja, encontra-se com um dos mais celebrados enólogos portugueses, Luis Duarte, que assina os produtos de mais de 15 adegas em Portugal. Sua chegada à propriedade deu-se após 18 anos na famosíssima Herdade do Esporão. Ali, produz vinhos aveludados, de nariz e boca inesquecíveis, em que combina uvas da terra, como o aragonês, a tinta miúda e o alicante bouschet a castas do Douro, como a touriga nacional e outras que já se aclimataram à área, do syrah ao cabernet sauvignon.
Os sucessos dos vinhos vieram rapidamente. Uma pesquisa recente mostra que o Herdade dos Grous já está em sexto no paladar português, atrás apenas de ícones como Barca Velha e Pera Manca. “Logo na primeira vindima, em 2004, já conquistamos prêmios de melhor vinho pela Expovinis e pela Confraria de Enófilos do Alentejo. Essa é a nossa publicidade”, diz Duarte, que não investe em anúncios.
No almoço, servido pela própria equipe da quinta, a tiborna, um petisco de pão alentejano com azeite ainda quente da extração recente; ovos mexidos à perfeição com farinheiras, tomates e aspargos; entradas de vieiras e gambas (camarões enormes) e entrecosto de carne alentejana, antes de uma seleção dos doces da região, com destaque para a marmelada sobre queijo de Azeitão.

Na conversa à mesa, requintes como a colheita de uvas com base no movimento da lua, que exigem atividades às 3 horas da manhã, sob a luz de holofotes. “Se a lua influencia as marés salinas, influencia também as marés viníferas”, explica Duarte, que arremata: “os vinhos colhidos na manhã mostram mais elegância em aromas, ervas e taninos”.
Sobre o resgate de uvas ancestrais do Alentejo, que vem sendo realizado por grandes nomes do vinho, entre eles Paulo Laureano, o enólogo é enfático: A evolução do vinho no Alentejo tem de ser vista como negócio e penso que o resgate é uma ideia linda, mas que não influencia a indústria.

Também em Albernôa está outra propriedade sob a tutela de Luiz Duarte, a Quinta da Malhadinha Nova. Os vinhedos são recentes, plantados há uma década, em torno de uma propriedade que estava em ruínas. Coube à família de João Soares restaurar completamente o complexo de casas e transformá-lo não somente em adega, mas também em uma das mais adoráveis pousadas do Alentejo. São dez quartos com decoração contemporânea, mas muito respeitosa com a construção original, que resultam em um design hoteleiro que muitas capitais tentam reproduzir em vão.

Do restaurante, sob consultoria do uber chef Joachim Koerper, um alemão radicado em Lisboa, saem iguarias como o creme de agrião com atum da costa algarvia; a corvina (pescada horas antes) com xerém, um purê de milho; o espeto de carne alentejana, que se desmacha na boca; o gratinado de nozes com laranja e sorvete de canela. Entre os temperos, destaque para o azeite da propriedade, aromático, penetrante e de cor turva que lembra exatamente a de uma bela uva branca. Vale levar como lembrança.
Na degustação dos vinhos, realizada à medida que chegavam os pratos, a palavra de ordem: “respeito à fruta”. Vieram rótulos como a Paceguina e o Antão Vaz, com frescores e toques de melões e pêssegos.

E o Malhadinha Tinto, de acidez, equilíbrio e estrutura por trás de rótulos adoráveis, alguns desenhados pelos próprios filhos de João Soares, um deles homenageado pelo rótulo Pequeno João. Mara quem gosta de notas de experts, o Tinto já recebeu notas 92 e 93 de Mark Squires, o preposto de Robert Parker para os vinhos portugueses.

A rigor, a Herdade do Esporão dispensaria apresentações. Mas a dinâmica da marca exige que seja sempre revisitada. Primeiro, pelo desenvolvimento da empresa, que a levou ao quarto lugar no ranking dos maiores produtores de Portugal, especialmente após adquirir outra marca conhecida, a Quinta da Murça. Segundo, pela sua preocupação, dita e repetida pelo enólogo Luis Patrão: descobrir áreas mais frescas para proporcionar mais elegância e menos álcool.

Por mais tradicional que pareça, o Esporão começou a ressurgir depois de 1980, após o fracasso agrário da Revolução dos Cravos na região. “Foi a partir daí que o Alentejo começou a se tornar uma espécie de Novo Mundo dentro de Portugal”, diz o enólogo, referindo-se às novas áreas viníciolas fora da Europa.

Hoje a variedade de vinhos da propriedade já se exibe na chegada, com o serviço de um agradável espumante à base de verdelho e da incansável antão vaz. Já na mesa do restaurante da Herdade, prova-se o rosé Vinha de Defesa e o Reserva Branco 2010, que acompanham uma degustação dos azeites da casa, igualmente festejados, uma salada de polvo sobre tosta de pão alentejano e o cogumelo recheado com queijo e tomate.

O Torre do Esporão 2007 é um dos melhores vinhos da atualidade. Aveludado, elegante, equilibrado, persistente por horas, chegará ao mercado no fim de 2012, após etapas como 18 meses em barrica francesa de seu corte de touriga nacional e alicante bouschet. Serão 3 mil garrafas – ou algumas a menos, depois do almoço do grupo de jornalistas brasileiros. E recomendação de se guardar por pelo menos 15 anos.

O vinho foi servido com dois pratos potentes: a bochecha de porco assada lentamente e o bacalhau, o primeiro da viagem, para assombro da tradição. Foi preparado em sous vide e servido com espuma de ovos, alho e alecrim.
Em Estremoz, uma das cidades que mais conservam a estrutura original dos castelos e muralhas que a cercam, a degustação dos vinhos de Margarida Cabaços pode acontecer na sua propriedade, que é inteiramente conduzida por mulheres, ou no restaurante São Rosas, também da enóloga. Fritos de porco e migas de batatas e tomates acompanham um rótulo que provoca sorrisos maliciosos, o Monte dos Cabaços. Na prova dos brancos, vinhos sérios: o Branco 2010, com estrutura da uva roupeiro, arinto e, sempre ela, a antão vaz; o Margarida Branco 2009, produzido com a uva da moda em Portugal, o encruzado.

Entre os tintos, as notas de frutas da touriga nacional prevalecem no Colheita Selecionada 2006 e no Reserva 2005. Neles está presente também a estrutura da uva syrah, que comanda o corte do Margarida Tinto 2008. Na sequência, Tiago Cabaços, filho de Margarida, mostra a sua linha de vinhos, todos com rótulos cibernéticos e criativos: .com, .beb e .blog, que, mais do que uma piada, já estão relacionados por críticos como Rui Falcão como um dos dez melhores de Portugal.

 

 

 

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