cadastre-se entrar

Connect with Facebook

Uma confirmação de registro será enviada para você por email.


Connect with Facebook

Perdeu a senha?

As aventuras de Tintim à mesa.


Um perfil gastronômico do personagem que ganhou nascença no traço de Hergé – e renascença no talento de Spielberg.

Pedro Mello e Souza

Tintim abre um Cordon Rouge em O caranguejo das tenazes de ouro

 

O cardápio do restaurante Le Petit Vingtième, no Museu Hergé, dedicado às aventuras de Tintim, é instigante. Sugere entradas como as do risoto aos cogumelos dos bosques belgas e o croustillant de queijo chèvre com figos. Indica entradas que vão da codorna recheada com ameixas secas e redução de porto ao civet de marcassin (um ensopado rico do leitão de javali das Ardenas). E apresenta sobremesas com especialidades como a crème brulée com a fava autêntica de baunilha e o spéculoos (um biscoito flamengo) com tiramisù de frutas vermelhas. Três pratos com vinho, 30 euros. Como opção para a bebida, la caipirinha.

Capitão Haddock e o champanhe Brochet-Hervieux

Interessante mesmo, portanto, muito embora a seleção de pratos e vinhos em nada remeta ao bom gosto de nosso herói à mesa. E isso fica claro no filme As aventuras de Tintim: O segredo do Licorne, que estreou na Europa em novembro e, no Brasil, em Janeiro. E que já conquistou o Globo de Ouro como “Melhor Animação” e números apetitosos: mais de 100 milhões de euros no primeiro mês de exibição.

Pessoalmente, Tintim não tem grandes relações com a gastronomia. Ou sequer pelo bom copo. Ao contrário, após a edição do nono episódio da série impressa, O caranguejo das tenazes de ouro, ele passa da abstinência à reação patrulheira a bebidas – levemos em consideração, eram anos 30, época da histeria das leis secas -, deixando a cargo do bravíssimo Capitão Haddock bom gosto pelo uísque e pelos bons vinhos. Coisas do polêmico autor, Georges Remi, dito Hergé. Começam aí as aventuras de Tintim à mesa.

Em O caso Girassol, é possível reconhecer um desses vinhos, um branco, suíço ou francês das proximidades – de Anjou ou Alsácia, pelo formato da garrafa. Mas é pelos rótulos que se identificam duas marcas importantes de champanhe, estas em vários episódios.

A outra, a Brochet-Hervieux, uma explícita referência do autor à sua marca favorita. Em resposta, a casa lançou uma série comemorativa, numerada, com a cena em que o rótulo entra em cartaz, no episódio Rumo à lua. Os exemplares ainda existentes são disputados em leilão, a preços que já superaram a marca dos 100 euros.
Em Loto azul, Tintim bebe chá sem parar. E, raridade, aparece com um copo de cerveja na mão, em A ilha negra, onde há ainda explícitas e repetidas referências ao uísque Loch Lomond. Mais uma cerveja na mesa dos Dupondt, no caso do Tenazes de Ouro, em que, aliás, nenhuma lata de caranguejo, objeto da história, é aberta para uma boa garfada.

Em tempo, os únicos pratos que Tintim pede ao longo dos 25 livros de sua saga são a sopa de couves do pouco conhecido No país dos sovietes – e que nem comeu: jogou na cabeça do oponente – e a dupla de fictícios szlazek com cogumelos e sua guarnição de spradj, em O cetro de Otokar. Mais cogumelos aparecem em “A estrela misteriosa”, mas como uma assustadora anomalia alienígena.

Capitão Haddock e uma das garrafas estraçalhadas.

No mesmo episódio, Tintim alimenta-se de biscoitos frugais. Nada frugais, porém, os biscoitos belgas Delacre, lançaram, em 2011, duas séries de latas com diversas imagens clássicas de Tintim e seus amigos, inclusive o Milu, que, no filme, ganha o nome de Snowy.

Alimentando-se sem degustar, há os antílopes que caçou em Tintim no Congo, o frango, que Milu roubou do trem em A ilha negra, o pão e o vinho que surrupiou de um posto de fronteira, em O cetro de Otokar. Aliás, só o pão: o autor manteve a castidade do personagem estilhaçando a garrafa com um tiro providencial.

Outro tiro providencial está na capa de O caranguejo das tenazes de ouro, quebrando a garrafa de uísque do Capitão Haddock, que apareceria nesse episódio, pela primeira vez, como um bêbado de clichê. No mesmo livro, um “bourgogne vieux” é visto como uma miragem no deserto. Mas o autor vai à forra e, mais à frente, os bandidos metralham uma adega inteira.

O susto de Tintim com o cogumelo gigante de "A estrela misteriosa".

No mesmo livro, outro tiro, esse de um dos berberes no deserto, estraçalha uma garrafa de uísque e desperta a ira do capitão. Caberá a Milu destruir uma cristaleira inteira, nas primeiras páginas de As sete bolas de cristal. E à trapalhada de um dos detetives Dupondt, arruinar uma garrafa de conhaque três estrelas, em O segredo do Licorne – essa cena foi fuzilada do filme.

Hergé adora destruir bebidas, seus copos e garrafas: elas estilhaçam em O caso Girassol, são apedrejadas em Tintim no Tibete, são reviradas (duas vezes, uma delas uma garrafa de Haig) em O país do ouro negro, ejetadas em As joias da Castafiore, proibidas em Voo 714 para Sydney e ainda cuspidas em Tintim e os Pícaros – neste último episódio da série, o Professor Girassol descobre a cura do alcoolismo.

No filme, como em toda a sua trajetória, a culinária das Aventuras de Tintim é difícil de engolir. Vale mais a pena optar pelos biscoitos da Delacre ou pelo cardápio do restaurante do museu, esse sim, um alimento para os olhos.

 

Deixe seu comentário

publicidade