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A gastronomia sob a lente dos fotógrafos cariocas.


Sei o peso de um clique certeiro, bem-dosado e temperado. Dele, dependem minhas páginas semanais, os livros que edito e as eventuais colaborações que assino em revistas especializadas. Daí, ter como parceiros esse timaço de craques que recheiam essa edição, convenhamos, estimularia o apetite do mais enfastiado dos mortais. Imagine o meu, uma gastromaníaca assumida! Como engolir toda essa “sopa de letrinhas” a seco, sem harmonizar com a bela seleção de fotos feita por esses mestres da fotografia gastronômica? Convenhamos, em matéria de comida, foto rouba à cena. É a cereja do bolo, a azeitona da minha empada.
Por Luciana Fróes

Foto conceitual de Sergio-Pagano

Foto conceitual de Sergio-Pagano

Bob Noto, jornalista, gourmet, crítico e fotógrafo italiano cunhou o termo “Food-Look”, que adoro e considero fundamental. Autor de suas próprias fotos, Bob faz tudo na hora, em cena, enquanto come, sempre com um ângulo irreverente e olhar apaixonado típico de quem curte o que faz: fotografar e comer. Na hora de publicar, faz misérias no computador. O resultado é uma obra-prima. Mas fiquemos no Food Look no Brasil, onde nomes como o de Sergio Pagano, pioneiro na área, logo vem à tona. Milanês, começou a fotografar profissionalmente em 1970 com arte conceitual e arquitetura. Só começou a se interessar por gastronomia em 1988, já no Brasil, quando passou a colaborar para a revista Elle. Não parou mais. Seu primeiro livro saiu em 1993, parceria com o chef Claude Troisgros, com fotos atualíssimas até os dias de hoje. Atualmente, acumula mais de 30 livros publicados. Entre eles, o da Roberta Sudbrack (Uma chef, um palácio, editado pela DBA), nossa primeira (e única) parceria. Passamos dias nas “internas” do Alvorada,em Brasília, mais precisamente, na cozinha do Palácio, onde a chef era a titular. Passávamos horas testemunhando Roberta e seu staff em ação, preparando os almoços palacianos. Um deles, para nada menos do que o ex premier inglês Tony Blair. Enquanto, eu anotava, Pagano clicava. Detalhe: em meio a uma coisa e outra, o rosbife de mignon do cardápio passou do ponto. O sufoco foi geral. Todos mudos (inclusive nós) tentando contornar a saia-justa. E contornaram, felizmente. Pagano registrou todo o episódio com sua câmera discreta e precisa. O que é uma boa foto de gastronomia para Pagano? “ Uma amiga costuma dizer que a comida me vê e sorri de felicidade e sabor. Acho que é porque só fotografo o que sinto que pode me dar prazer. Pode ser essa a minha receita”, resume Pagano, que selecionou uma foto para exemplificar o seu trabalho: a da capa dessa edição, feita para exposição pernambucana “Açúcar e com afeto”, nunca publicada no Rio. Ela exemplifica bem o seu modo de ver através da sensualidade e das formas saborosas. “Para mim, todas as fotos são importantes, feitas sempre com sabor e com afeto, porque elas começam do produto bruto e vão até a imagem final. O clique é apenas a arte-final do meu pensamento.” Resume Pagano.

Os fotógrafos com "Sergio Pagano" (Clique para ver a foto original)

Foto para “Os fotógrafos” com Sergio Pagano.

A chef Flávia Quaresma é que conta que toda vez que sai a foto de algum prato feito por ela na imprensa, o cliente chega no seu restaurante, o Carême, com a publicação em punho, dizendo: “olha, eu quero um igualzinho a esse!”. A foto, querendo eu ou não, é o prato principal de qualquer matéria gastronômica. Berg Silva, 42 anos, meu parceiro d’O Globo, já foi responsável por vários desses cliques que fisgaram os leitores. E os levaram ao restaurante da Flávia. Há décadas, o repórter fotográfico caiu na gastronomia de bandeja. Entre um músico e um artista de TV, fotografava um prato aqui e outro acolá. Tomou gosto. Passados alguns anos, se tornou um dos mestre na área. Segredos do mestre? Muitos: cor é tudo em uma foto de comida; terceira dimensão também é fundamental para realçar o prato no primeiro plano e, em caso de precisar de efeitos especiais, nada de computador. Uma fumacinha de cigarro soprada no canudinho, sem pressa, faz milagres… Dentre as muitas fotos que Berg me encaminhou, fiquei com os bolinhos salpicados de açúcar que lembram neve e, ironicamente, foram clicadas em um galpão escaldante na Gamboa. E os 500 talheres recém-lavados na cozinha do Porcão, que o fotógrafo deu de cara, casualmente, a caminho da adega e rendeu uma foto adorável. “Mas sabe o que mais me encanta em fotografar comida? Ela não reclama, não pede para ver como ficou, nem para mandar a foto depois!”, diverte-se.

Foto de Berg-Silva.

Foto de Berg-Silva.

Alexander Landau, é outra estrela que brilha no ramo. Landau era bancário até 1987, mas dividia-se entre o “ponto” no Banco do Brasil e frilas em jornais como O Fluminense, O Dia e Estadão. Seu primeiro clique gastronômico foi para a revista Gula. Hoje, vive com a agenda lotada. Apaixonado pelo universo gastrônomico, por ele, pegava a estrada e ia conhecer de perto todos os mercados, feiras e eventos ligados à comida pelo Brasil todo. Em certa oportunidade, uma cliente queria reproduzir um clima da Tailândia, tendo como fundo um marzão bem azul. Só que estavamos a quilômetros do mar e chovia cântaros. A saída foi amarrar um pano azul com uma corda e pedir ao meu assistente para ficar balançado o pano e, assim, desfocar o fundo. Parado, daria para ver que era armação. O resultado me agradou. Melhor: à cliente também.

Foto de Alexander Landau

Foto de Alexander Landau.

Para Fábio Rossi, apesar de novato em culinária, vem despontando em meio a pesos-pesados. Para ele, o maior desafio é tornar um prato bonito, mais apetitoso ainda. E, ao contrário, com pratos não tão generosos assim, sacar qual é o seu melhor ângulo. “Fotografia de comida tem que despertar a gula de quem vê. E mexer com os sentidos, o que é um desafio.” Rossi selecionou fotos que considera valiosas por ter conseguido resolver bem em curtíssimo espaço de tempo. Foram feitas para divulgação do festival de gastronomia de Búzios. Para tanto, teve que fotografar 25 restaurantes em apenas um fim de semana. Isso sem qualquer suporte, produção, assistente… “Essa rapidez é uma coisa que o jornalismo diário nos dá”, diz Rossi, que hoje assina as fotos de grandes cozinhas brasileiras

Foto conceitual de Sergio Pagano. (Clique para ver a foto original)

Foto conceitual de Sergio Pagano.

Ricardo Bhering é outro profissional que vem se especializando nesse tipo de fotografia. É dele uma das capas mais interessantes de comida que vi ao longo do ano. Foi na edição anterior da Eatin’ Out, sobre a nova leva de peixes desconhecidos que surgiu no mercado. Depois de uma série de fotos que não o agradou, resolveu ir à luta e mergulhar de cabeça na capa: foi pessoalmente ao Mercado de Peixes de Niterói, comprou os peixes (pampo, olho-de-boi), voltou para o estúdio e montou a foto sozinho, sem assistente ou ajuda de ninguém: “pegava no peixe, corria para lavar a mão, e voltava para a câmera. Uma ginástica! Aí, a luz estoura em alguns cantos para dramatizar a cena e apostei em um fundo cinza. Procurei passar o frescor do peixe, que era fundamental. Felizmente funcionou” conta Bhering.

Foto capa Edição 04 revista Eatin'Out. Ricardo Bhering

Foto capa Edição 04 revista Eatin’Out. Ricardo Bhering

Foto de Ricardo Bhering. (Clique para ver a foto original)

Foto de Ricardo Bhering. (Clique para ver a foto original)

Mas nesses dez anos de jornalismo gastrônomico, os fotógrafos Guto Costa, Fábio Seixo, Leonardo Aversa e Camilla Maia garantiram as muitas páginas de comida, primeiro no Jornal da Família, depois no Rio Show. Se for folhear as centenas de matérias que assinei (Ana Cristina Reis, hoje editora do ELA, também) ao longo desses anos, lá estará o quarteto. Guto e Fábio deixaram o jornal, mas volta e meia fazem “frilas”, é o caso do Fábio Seixo, que assinou as duas edições especiais da revista RioShow de gastronomia com suas fotos deslumbrantes. Camilla e eu praticamente começamos juntas na área. A gastronomia (não mais culinária) engatinhava na cidade e começava a conquistar espaços no jornal. Até chegar às quatro páginas atuais. Fizemos ótimas dobradinhas (foto e texto, que fique claro, já que a câmera não é o meu prato predileto). Camilla é clean no que faz. Nada de muitos elementos: “ Foto de comida para virar despacho de macumba é um pulo”, avisa, com seu humor rascante usual. Suas fotos são inconfundíveis, conheço de longe. mesmo em fotos de divulgação, que por algum deslize, chegue sem crédito. Não titubeio. Se tiver, então, um simples garfinho apoiado no prato, não tem erro: é da Camilla Maia. “Nem sempre um prato é bonito e maravilhoso. Já fotografei coisas horríveis. E é aí que está o desafio. Às vezes um detalhe salva a foto.

Foto de Camilla Maia. (Clique para ver a foto original)

Foto de Camilla Maia.

Guto Costa (também conhecido por Gato Costa), hoje com estúdio e, independente, divide-se entre fotos de shows, capas de CDs e cliques deliciosos. Para ele, o ponto crucial de uma foto de comida é a luz. “Um prato pode chegar lindo, mas uma iluminação errada acaba com tudo. Pode ficar indigesto.” Para ele, os pratos mais simples são os maiores desafios para um fotógrafo de comida. “O arroz com feijão, acreditem, é complicadíssimo. Carne também, porque é escura e feiosa. Mas nada que uma boa luz não salve.”

Gauffre de Bruxelas. Foto de Erik Barros Pinto. (Clique para ver a foto original)

Gauffre de Bruxelas. Foto de Erik Barros Pinto.

Fábio Seixo, também, acha a luz fundamental, seja para o que for fotografado, especialmente pratos. Leva sempre a sua entre os equipamentos. E lentes macro. “ A composição da foto também conta. É preciso ser sútil, elegante, ter bom gosto. É como uma receita de um prato: uma pitada de sal a mais, pode botar tudo a perder”, avisa Seixo, há 13 anos um mestre em clicks deliciosos, que assim como todos aqui mencionados (e tantos outros bambas que mereciam constar desse cardápio) nos fazem comer com os olhos, salivar de prazer e que nos levam a restaurantes como o da Flávia Quaresma de revista em punho, “querendo um igualzinho ao da foto”.

Peixes no satyricon. Foto: Fabio Seixo. (Clique para ver a foto original)

Peixes no satyricon. Foto: Fabio Seixo.

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